terça-feira, 30 de junho de 2015

A sociedade democrática não precisa de armar Polícias, muito menos Titulares de Cargos



A sociedade democrática não precisa de armar Polícias, muito menos Titulares de Cargos

“Às armas” foi a palavra-chave para mobilizar a resistência em países dominados por um poder alienígena ou para resolver disputas territoriais.  A demanda(social) fez a procura(de mercado) e as armas passaram a ser uma fonte de rendimento apreciável, uma indústria poderosa que em certos casos está ao serviço de estados e pessoas, de público e privado, de bons e maus.
Uma sociedade agressiva pede uma polícia agressiva para manter a ordem, defendem uns.
Mas hoje podemos olhar para o modelo britânico, que aperfeiçoa a sua Polícia em  competências outras que não as relativas ao uso de armas.  São as ciências humanas que são chamadas à liça quando se trata de ensinar  a polícia a estabelecer as melhores relações com o público. Os “bobbies”, o apelativo dado aos polícias que garantem a segurança pública, não andam com armas de fogo. Têm um “barapó”, a que chamam “stick”(cacete), e gás pimenta,  que podem usar quando a força da palavra se revelar fraca.
Perguntarão: E se os delinquentes andam armados? Pois é, dizem estudos da Universidade de Manchester, os delinquentes não andam armados! Raras são as armas, ao contrário do que vemos nos Estados Unidos. 

Uma polícia ao serviço do público não precisa de armas, se for bem treinada – é o lema no Reino Unido –, porque o diálogo é mais eficaz.
A principal diferença entre os Estados Unidos e o Reino Unido está, de facto, na diferente concepção que a sociedade tem da polícia. Enquanto para os britânicos, a polícia está ao serviço da população, os americanos parece que concebem uma polícia antes de mais ao serviço do poder do Estado, abstraindo dos cidadãos –  afirmam os estudiosos que estão a propor uma nova abordagem na formação policial.
Não será só por essa diferente concepção que cada uma destas  sociedades tem da polícia, como nos revela o “conhecimento” que temos da  sociedade americana (pelo menos,  aquela que nos dão os produtos culturais, os noticiários, os ecos da nossa diáspora).  Cowboys  armados de colts, carabinas, revólveres, uma extensa lista de armas que mataram muitos, garantiram a posse da terra aos  chegados em terra alheia, expulsaram os indígenas … continuam a  resolver disputas, muitas delas corriqueiras.
 A violência chama a violência, diz o Eclesiastes. E afinando pelo diapasão, os criminologistas dizem que no  Reino Unido os delinquentes não andam armados! Raras são as armas, ao contrário do que vemos nos Estados Unidos.  Na sociedade americana, na paz e contra civis, as armas continuam a matar. Continuam a ser exportadas, chegaram até nós em alguns casos (alguém se lembra do contentor de armas encontrado numa pacata localidade desta terra, provavelmente muitos anos depois de ter aqui entrado?).
Pessoas de boa vontade têm tentado travar a venda de armas,  pelo menos que não sejam vendidas a pessoas menos idóneas – defendem . Em vão, porque o lóbi dos armeiros é muito poderoso – como se viu em 2013(?) com o chumbo que o Congresso dos Estados Unidos deu a uma lei para disciplinar a venda de armas.

As estatísticas não escondem uma verdade esmagadora: nos EUA, num só dia a polícia dispara a matar  mais vezes do que a polícia britânica em cinco  anos – constatação do Washington Post (como publicou na sua edição online esta semana). A Universidade de Manchester diz que é porque a polícia britânica aprende a conversar, a evitar o confronto e a exibição de força. A polícia que anda armada conta-se em menos de 3% (209 em 6900 polícias na cidade de Manchester) segue um protocolo estrito e que resulta de treinos em sessões periódicas que preparam o agente para: se necessário virar as costas ao contendor exaltado evitando  o confronto “gratuito”, até deixar fugir um suspeito (excepto se o mesmo não estiver desarmado), fazendo a Polícia tudo para não disparar.
A sociedade democrática precisa de aperfeiçoar os seus mecanismos para uma sociedade em que a criminalidade é residual. Os custos da capacitação inicial e continuada da Polícia devem ter um retorno: transformar os agentes em membros de elite preparada para a defesa do público, e claro, de Titulares de Cargos.

P.S.: Esta publicação é dedicada ao meu Pai, que me ofereceu leituras políticas – destinadas a fazer de mim uma pessoa “bem centrada”.