A sociedade
democrática não precisa de armar Polícias, muito menos Titulares de Cargos
“Às armas” foi a palavra-chave para mobilizar a resistência em
países dominados por um poder alienígena ou para resolver disputas territoriais.
A demanda(social) fez a procura(de
mercado) e as armas passaram a ser uma fonte de rendimento apreciável, uma
indústria poderosa que em certos casos está ao serviço de estados e pessoas, de
público e privado, de bons e maus.
Uma sociedade agressiva pede uma polícia agressiva para
manter a ordem, defendem uns.
Mas hoje podemos olhar para o modelo britânico, que
aperfeiçoa a sua Polícia em competências
outras que não as relativas ao uso de armas. São as ciências humanas que são chamadas à
liça quando se trata de ensinar a polícia
a estabelecer as melhores relações com o público. Os “bobbies”, o apelativo
dado aos polícias que garantem a segurança pública, não andam com armas de
fogo. Têm um “barapó”, a que chamam “stick”(cacete), e gás pimenta, que podem usar quando a força da palavra se
revelar fraca.
Perguntarão: E se os delinquentes andam armados? Pois é, dizem
estudos da Universidade de Manchester, os delinquentes não andam armados! Raras
são as armas, ao contrário do que vemos nos Estados Unidos.
Uma polícia ao serviço do público não precisa de armas, se
for bem treinada – é o lema no Reino Unido –, porque o diálogo é mais eficaz.
A principal diferença entre os Estados Unidos e o Reino
Unido está, de facto, na diferente concepção que a sociedade tem da polícia.
Enquanto para os britânicos, a polícia está ao serviço da população, os
americanos parece que concebem uma polícia antes de mais ao serviço do poder do
Estado, abstraindo dos cidadãos – afirmam
os estudiosos que estão a propor uma nova abordagem na formação policial.
Não será só por essa diferente concepção que cada uma
destas sociedades tem da polícia, como
nos revela o “conhecimento” que temos da
sociedade americana (pelo menos,
aquela que nos dão os produtos culturais, os noticiários, os ecos da
nossa diáspora). Cowboys armados de colts, carabinas, revólveres, uma
extensa lista de armas que mataram muitos, garantiram a posse da terra aos chegados em terra alheia, expulsaram os
indígenas … continuam a resolver
disputas, muitas delas corriqueiras.
A violência chama a
violência, diz o Eclesiastes. E afinando pelo diapasão, os criminologistas
dizem que no Reino Unido os delinquentes
não andam armados! Raras são as armas, ao contrário do que vemos nos Estados
Unidos. Na sociedade americana, na paz e
contra civis, as armas continuam a matar. Continuam a ser exportadas, chegaram
até nós em alguns casos (alguém se lembra do contentor de armas encontrado numa
pacata localidade desta terra, provavelmente muitos anos depois de ter aqui
entrado?).
Pessoas de boa vontade têm tentado travar a venda de armas, pelo menos que não sejam vendidas a pessoas
menos idóneas – defendem . Em vão, porque o lóbi dos armeiros é muito poderoso
– como se viu em 2013(?) com o chumbo que o Congresso dos Estados Unidos deu a
uma lei para disciplinar a venda de armas.
As estatísticas não escondem uma verdade esmagadora: nos EUA,
num só dia a polícia dispara a matar
mais vezes do que a polícia britânica em cinco anos – constatação do Washington Post (como
publicou na sua edição online esta semana). A Universidade de Manchester diz
que é porque a polícia britânica aprende a conversar, a evitar o confronto e a
exibição de força. A polícia que anda armada conta-se em menos de 3% (209 em
6900 polícias na cidade de Manchester) segue um protocolo estrito e que resulta
de treinos em sessões periódicas que preparam o agente para: se necessário virar
as costas ao contendor exaltado evitando
o confronto “gratuito”, até deixar fugir um suspeito (excepto se o mesmo
não estiver desarmado), fazendo a Polícia tudo para não disparar.
A sociedade
democrática precisa de aperfeiçoar os seus mecanismos para uma sociedade em que
a criminalidade é residual. Os custos da capacitação inicial e continuada da
Polícia devem ter um retorno: transformar os agentes em membros de elite
preparada para a defesa do público, e claro, de Titulares de Cargos.
P.S.: Esta publicação é dedicada ao meu Pai, que me ofereceu
leituras políticas – destinadas a fazer de mim uma pessoa “bem centrada”.